A Caverna

Esta é a caverna, quando a caverna nos é negada/Estas páginas são as paredes da antiga caverna de novo entre nós/A nova antiga caverna/Antiga na sua primordialidade/no seu sentido essencial/ali onde nossos antepassados sentavam a volta da fogueira/Aqui os que passam se encontram nos versos de outros/os meus versos são teus/os teus meus/os eus meus teus /aqui somos todos outros/e sendo outros não somos sós/sendo outros somos nós/somos irmandade/humanidade/vamos passando/lendo os outros em nós mesmos/e cada um que passa se deixa/essa vontade de não morrer/de seguir/de tocar/de comunicar/estamos sós entre nós mesmos/a palavra é a busca de sentido/busca pelo outro/busca do irmão/busca de algo além/quiçá um deus/a busca do amor/busca do nada e do tudo/qualquer busca que seja ou apenas o caminho/ o que podemos oferecer uns aos outros a não ser nosso eu mesmo esmo de si?/o que oferecer além do nosso não saber?/nossa solidão?/somos sós no silêncio, mas não na caverna/ cada um que passa pinta a parede desta caverna com seus símbolos/como as portas de um banheiro metafísico/este blog é metáfora da caverna de novo entre nós/uma porta de banheiro/onde cada outro/na sua solidão multidão/inscreve pedaços de alma na forma de qualquer coisa/versos/desenhos/fotos/arte/literatura/anti-literatura/desregramento/inventando/inversando reversamento mundo afora dentro de versos reversos solitários de si mesmos/fotografias da alma/deixem suas almas por aqui/ao fim destas frases terei morrido um pouco/mas como diria o poeta, ninguém é pai de um poema sem morrer antes

Jean Louis Battre, 2010

28 de janeiro de 2026

segredo

Escrevo agora em segredo

No horário do trabalho

Ali do lado

outro funcionário

 Parece me olhar

Quando olho

ele logo vira o rosto

vira o monitor

franze a testa

 ou assim eu imagino 

 

Escrevo meio escondido

Como um revolucionário

Que espera o freio de emergência

Aquele puxado de surpresa

 

Escrevo de sobressalto

olhando por sobre os ombros

Olhando de lado

Sempre sério

muito calado

 

Escrevo assim em silêncio

Sem dizer nomes

espero pela hora de partir

Escrevo tão intensamente

que penso que esse silêncio

é no fundo a vontade de cada um

compartilhar este secreto poema

Agora estariam todos

como eu

a escrever poemas?

sonetos?

ou apenas esperam o romper das horas

o silêncio desta noite que nos atravessa a todos

como uma mão misteriosa

que põe a tocar um sino

como nos dias de escola

quando finalmente ao fim do dia

soava o sinal para o recreio?

 

Salvador Passos

2 de dezembro de 2025

Os livros talvez não sejam necessários

 "Os livros talvez não sejam necessários; a princípio bastavam os mitos: podiam encerrar toda uma religião. O povo encantava-se com a aparência das fábulas, e adorava sem compreender; os sacerdotes atentos, debruçados sobre a profundidade das imagens, penetravam lentamente o intimo sentido do hieróglifo. Depois quiseram explicar; os livros amplificaram os mitos alguns mitos - mas alguns mitos bastariam."


Andre Gide


[0 tratado de Narciso (Teoria do Simbolo), 1891]

22 de novembro de 2025

Depois que se chega ao tudo

 Depois que se chega ao tudo

É preciso voltar

                             A NADO


Salgado Maranhão 

15 de novembro de 2025

Bendita Palavra Maldita

imagine se 

por algum estranho motivo 

a música parasse de tocar


e pudesse ser consumida 

apenas através de partituras. 

o mundo ia ficar mais triste 

bem mais triste


isso aconteceu com a poesia. 

afastada do corpo e da fala 

confundida com a escrita 

passou a ser monopólio 

de um estreito círculo de iniciados


mas isso está mudando

isso está mudando 

isso está mudando


Chacal

1 de outubro de 2025

Sempre

 E sempre que vier a dor do ser

revirá o último cuspe, sabor de osso

a remoer o sonho

sempre que souber de quem lutara

nas guelras de mal dormidas batalhas

e no rilhar dos dentes se afogara

em meio a poentas e estúpidas mortalhas,

desse modo, e sempre que houver palavra

a ser cuspida por entre tanta ausência

e pelo humano pó de uma qualquer estrada

onde mortos se enovelam pelas selvas

de sementes e feras apagadas,

este estampido cego, o absurdo oco

de que me valho para que, pouco 

a pouco, o poema se esvazie do carretel

de fúrias e no tempo perfaça. ovo

ainda mais vazio no vazar da espuma, 

bile diária de quem perdeu o sonho. 

inútil luz de sol sotoposto, último

agosto de um violino a arder o oculto rosto

 

Pois sempre inodora a flama que desdenha

de uma aurora que não mais desempenha

 

Afonso Henriques Neto 

 

14 de agosto de 2025

A marcha das utopias

não era esta a independência que eu sonhava

não era esta a república que eu sonhava

não era este o socialismo que eu sonhava

não era este o apocalipse que eu sonhava


José Paulo Paes


6 de julho de 2025

Festa

Belchior datilografou 

para si um a um 

todos os versos 

da Divina Comédia


Eu só queria saber 

qual a sensação de colocar 

aquelas palavras 

naquela ordem disse ele


Leonardo Gandolfi