A Caverna

Esta é a caverna, quando a caverna nos é negada/Estas páginas são as paredes da antiga caverna de novo entre nós/A nova antiga caverna/Antiga na sua primordialidade/no seu sentido essencial/ali onde nossos antepassados sentavam a volta da fogueira/Aqui os que passam se encontram nos versos de outros/os meus versos são teus/os teus meus/os eus meus teus /aqui somos todos outros/e sendo outros não somos sós/sendo outros somos nós/somos irmandade/humanidade/vamos passando/lendo os outros em nós mesmos/e cada um que passa se deixa/essa vontade de não morrer/de seguir/de tocar/de comunicar/estamos sós entre nós mesmos/a palavra é a busca de sentido/busca pelo outro/busca do irmão/busca de algo além/quiçá um deus/a busca do amor/busca do nada e do tudo/qualquer busca que seja ou apenas o caminho/ o que podemos oferecer uns aos outros a não ser nosso eu mesmo esmo de si?/o que oferecer além do nosso não saber?/nossa solidão?/somos sós no silêncio, mas não na caverna/ cada um que passa pinta a parede desta caverna com seus símbolos/como as portas de um banheiro metafísico/este blog é metáfora da caverna de novo entre nós/uma porta de banheiro/onde cada outro/na sua solidão multidão/inscreve pedaços de alma na forma de qualquer coisa/versos/desenhos/fotos/arte/literatura/anti-literatura/desregramento/inventando/inversando reversamento mundo afora dentro de versos reversos solitários de si mesmos/fotografias da alma/deixem suas almas por aqui/ao fim destas frases terei morrido um pouco/mas como diria o poeta, ninguém é pai de um poema sem morrer antes

Jean Louis Battre, 2010
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24 de fevereiro de 2015

Instruções para compor um folk

Na Teodoro, me parece, nenhum momento é insignificante o bastante, como queríamos crer. A qualquer instante, entre vendedores de doces ou filmes pirata & algum grupo fazendo piadas com a nova estrela do futebol paulista, encontramos aquela garota com olhos cheios d’água carregando um pequeno vaso com flores da Nicarágua. Então ficamos em dúvida se deixamos na secura do ar aquela memória triste ou se a encharcamos com cerveja gelada – naquela lanchonete que vende os salgadinhos mais vagabundos da cidade, mas tem as mesas limpas & três ou quatro belas reproduções de Rothko. Inevitável não lembrar daqueles folks que falam dessa vida maltratada que levamos neste planeta. Aliás, para retomar aquele assunto sobre a composição de um folk, penso que, para compor um, precisamos do repouso pós-degustação das inflorescências femininas do cânhamo, da Berenice das insônias de Murilo, de rimar kiddin’ you com didn’t you. Precisamos de oferendas & arranjos florais. Precisamos nos imaginar Jean-Luc Godard vendendo, em um qualquer sebo parisiense, os livros autografados por Valéry roubados ao valerianum (a ilustre biblioteca de seu avô). O tema é tão antigo quanto um sorriso, homens decapitados & ervas daninhas. Tão conhecido quanto a caganeira de Pedro I, a gagueira de George VI & a demência do Führer. (Aliás, rimar esfíncter com Hitler daria uma boa fluidez à composição, além de funcionar como uma poderosa alegoria). Antes de cruzar a avenida & entrar na Oscar Freire, imagino que as pernas nuas da mulher amada poderão dar um perfume acústico à melodia. Mas, sabe que é estranho compor um folk? Há uma certa urgência, um desmentir, uma espécie de não-lugar fantasmagórico. Veja só: o que terá nomeado primeiro o primeiro poeta? Ao percorrer com as retinas alumbradas Vieira da Silva conseguiremos desadoecer a lâmina que insiste renomear nossa jugular? Que ansiedade porta um poliedro de fogo quando sabemos que poliedros de fogo não nos servem mais como inspiração? E, nesta praia de ossos, que inspiração? Não tendo como responder a isso, é necessário sujar os dedos de sangue. Não se deve ter medo das metáforas, já que a apregoada “morte da metáfora” é já, por si, uma metáfora. Se isso não for possível, talvez um sorvete de frutas vermelhas que, derretendo, escorra sua calda açucarada sobre a mão esquerda num domingo de sol enquanto se diz à namorada que nem os mais altos & complexos malabarismos da mente valem uma violeta. Mas, para ser mais preciso, insisto, seria mais bacana sangue. Ser duro (às vezes, cruel). Saber que a tristeza é a primeira flor do tempo, que nela é que, queiramos ou não, viveremos intensamente o suicídio de nossos desejos. Um a um. Então a morte novamente dará as cartas. Isso nos dissolverá. Um carinho ausente – por pura escolha. É muito válido, para compor um folk, uma nova reunião. & outra. Mais outra. De versos, de beijos, de amigos, de nãos, de figurinhas da Copa da Espanha. Ter a perfeita noção de que as pessoas a quem se destina o folk estarão interessadas exclusivamente em situações inesquecíveis. Pois quem já tocou a pele de seda & vidro moído da vida sabe que só o alumbramento vale o vexame de definhar-se, dia após dia, frente às contorções de tantas datas. Comprar certas brigas, respeitando sempre aquilo que nos eleva a nós mesmos & que, por isso, nos leva leves aos outros. Por exemplo: não precisa ser pró-Cuba nem anti-Cuba para entender que esta noite milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo etc. Um folk, meu caro amigo, é um silêncio brutal, é um hesitar, evitando relações com gente de temperamento sórdido, quando os vermes da alta patifaria endinheirada dizem que “o que fazemos não presta, porque andamos com uma roupa sovada & o colarinho sujo”. Sim, eu sei éramos o tipo de garotos que não costumavam chorar, nem mesmo sobre pesados invernos onde cai pesada, dentro da sessão da tarde, a solidão. Creio que, para compor um folk, não é preciso estudar numa escola rural & depois ingressar num seminário. Não é preciso trabalhar como tipógrafo, nem ter morado em Petrogrado. Não são necessários arranjos florais ou oferendas, nem padrinhos ou projetos aprovados pelo ministério da cultura. Conversar com Mársias sobre possíveis parcerias, sim – afinal, as flautas! Não é preciso devorar a comida siciliana, mas vale muito a pena comer as mil cortesãs de Corinto. Não é preciso rodar as ruas & vielas do Rio, como um zumbi, trincando de bêbado, à caça de Luísa Porto, nem é preciso emular as extravagâncias de William Cannastra. Lembra-se quando falei sobre o sangue? Pois então, levemos Iessiênin para passear pela Praça da República: Adeus, amigo, sem mãos nem palavras etc., imagine um poetic gore movie, imagine as curvas no rosto da garota Podolski quando caligrafava & desenhava O país onde tudo é permitido. Para compor um folk, turvos de amores & horrores, observando andorinhas chocando balas de fuzil, nós, indecisos pobres ossos de nós mesmos, na arena dessa desgraça portátil, tendo ou não colhido tulipas negras ou dálias azuis, devemos compreender que o horror não nos divide, o horror nos cerca. Observar a precisão astronômica dos moai do Pacífico Sul & ter em mente que todas as regras de construção só são válidas para os poemas que são cópias de outros poemas. Por isso: caminhar, caminhar – sabendo que, quando a ave sangria cantar três mil vezes, entraremos no império do transe & do delírio, onde, diria um carbonário, o planeta entra na órbita do coração.




Fabiano Calixto
Do livro Nominata morfina

12 de março de 2014

PEDAÇOS DO ESQUELETO



/ se eu quebrar com meus sonhos / e só restar o tédio
medonho, / a decrepitude, a tristeza infinita / o monturo
(na vida, na escrita) / nenhuma cia. de seguros / vai ar-
car com o prejuízo / então, / dou um basta à bosta toda
/ redesenho o traço da boca / deito um sorriso lindo para
o mundo / respiro fundo, vou com tudo / porque é assim
(e só assim) que se tem que ir // a av. Paulista correndo é
tão engraçada / parece uma cobra de marshmallow / uma
viagem de ácido / uma enguia eletrocutando a língua / os
olhares, os colares, tristes demais / estupefatos, oleosos,
covardes e sem razão / a cavoucar a cidade atrás de um
tostão / ou de um milhão / pobres diabos e diabos ricos
a rastejar / quarteirão a quarteirão / uns com ar condicio-
nado, mp3, Honda, / apartamento mobiliado, aulas de
inglês / outros não / a gente que tem / heliporto / vinho
do Porto / trabalha no Horto / não passa fome nem mor-
to / e a gente que / disfarce a disfarce / ganha apenas o
necessário / para endividar-se /

Fabiano Calixto

25 de novembro de 2013

UMA ORAÇÃO AMERICANA (AN AMERICAN PRAYER)

UMA ORAÇÃO AMERICANA
Jim Morrison
Tradução de Fabiano Calixto
I
Vocês sabem do progresso infernal
sob as estrelas?
Sabem que nós existimos?
Teriam esquecido as chaves
do Reino?
Nasceram?
Estão vivos?
Reinventemos os deuses
& os mitos dos tempos
Celebremos os símbolos
das profundas florestas ancestrais
(Esqueceram as lições
da velha guerra?)
Precisamos de GRANDES TREPADAS douradas
Os pais gargalham nas árvores do bosque
& nossa mãe está morta no mar
Sacam que somos levados
a massacres por plácidos almirantes
& flácidos generais lerdos têm
o obsceno vício por sangue jovem?
Sacam que somos controlados pela TV?
A lua é um animal de sangue seco
Guerrilheiros lançam os dados
na vizinhança de verdes vinhas
preparando-se para a batalha contra
inocentes pastores em frangalhos
Ó Grande Criador da existência
nos conceda um momento mais para
mostrarmos nossa arte
& aperfeiçoarmos a vida
As traças & os ateus são duplamente divinos
& moribundos
Vivemos, morremos
& a morte não acaba
com isso
Viajamos mais e mais para dentro
do pesadelo
Agarre-se à vida
Essa nossa flor apaixonada
Agarre-se às bucetas & caralhos
do desespero
Nossa última visão nos deu
a gonorréia
Os ovos de Colombo
incharam de morte verde
(Apalpei-lhe a bunda
& a morte sorriu)
Nós no centro deste teatro
senil e insano
A propagar nosso tesão pela vida
& fugir da sabedoria fervilhante
das ruas
Os celeiros foram destruídos
As janelas preservadas
& somente um entre tantos
Pra dançar & nos salvar
C/ o divino deboche das
palavras
& música inflamando o espírito
(Quando os assassinos do verdadeiro Rei
possuem a liberdade
1000 mágicos surgem
na terra)
Onde as farras
que nos prometeram?
Onde o vinho?
– O Vinho Novo –
(está morrendo na uva)
O deboche residente
Cede uma hora à magia
& nós da rubra luva
& nós do vôo maligno
& da hora de veludo
Nós saídos dos deleites árabes
Da cúpula do sol & das 1001 noites
Dê-nos algo
em que crer
Noite de LUXÚRIA
Dê-nos a bênção
de sua Noite
Dê-nos da cor
cem matizes
uma rica mandala
para mim & para você
& para a sua casa
forrada de seda
uma cabeça, sabedoria
& uma cama
Decrépito decreto,
o deboche decerto
clama seu crédito
Costumávamos crer
nos velhos tempos
E hoje apenas nos sobram
um sorriso engarrafado
As Coisas Delicadas
& a face terna
esquecem & consentem
Sabem que a liberdade só existe
nos livros escolares?
Sabem que os loucos
enchem as cadeias?
C/ uma cela, c/ uma gaiola,
C/ num Maelstrom ianque
Como pêndulos de cabeça para baixo
à beira do tédio
Buscamos a morte
na treva de uma vela
Procuramos algo
que já nos encontrou
Podemos criar nossos Reinos
grandes tronos rubros, sofás de luxúria,
& devemos nos amar numa cama de armar
Portas de aço asfixiam os gritos
da prisão
& música elétrica liga os sonhos
Não temos o ímpeto negro
da libertação
& os anjos loucos separam o joio do trigo
Uma colagem de revistas velhas
Postadas nos muros da fé
Esta é a justa prisão daqueles que devem
levantar cedo & suar, por repugnantes
inúteis valores
enquanto virgens em pranto
exibem miséria
& beicinhos diante da insana
sociedade
Porra, estou cheio das dúvidas!
Quero viver ao sol de um certo
Norte
Cruéis ligações
Os servos têm o poder
cabeças-de-porco & suas reles mulheres
cobrindo com míseros mantos
nossos marujos
(& onde você estava nessa hora difícil?)
Ordenhando seu bigode?
ou esmagando uma flor?
Estou cheio dessas caras feias
Que me olham da torre de
TV – Eu quero rosas no
rosto do meu jardim,
sacou?
Bebês reis, rubis
irão tomar o lugar de
estranhos abortados na lama
Esses mutantes, adubo sangüíneo
para o cultivo da planta
Estão à espreita para nos levar aos
jardins segregados
Sabem da palidez & da lascívia aguda
da morte quando, às horas insólitas,
sem aviso, sem escolta,
como um tenebroso conhecido,
nos leva pra cama?
A morte faz de todos nós anjos
& nos põe asas
onde antes havia ombros
macios como as garras
dos corvos
Chega de grana! Chega de luxo!
Este outro Reino parece ser de longe o melhor
até que outra mandíbula revele incesto
& perca o respeito à lei vegetal
Não
Eu não vou
Prefiro a farra de amigos
à família Gigante
II
Grande Cristo que grita
Margarida excitada
Maria-sem-vergonha, você se erguerá
numa manhã de domingo?
“O filme começa em 5 minutos”
uma voz idiota anunciou
“Todos os de pé esperarão
pela próxima sessão”
Lentamente entramos
na sala. O auditório era
vasto & silencioso.
Estávamos sentados & escurecia
A voz prosseguia:
“A programação desta noite
não é novidade. Vocês
já viram esse filme.
Viram seu nascimento,
vida & morte; devem se lembrar
do resto – (você encontrou
um mundo bom quando
morreu?) – passaria
um filme?”
Uma gargalhada de ferro arrebentou nossa mente
como uma porrada.
Vou sair daqui
Onde você vai?
Pro outro lado da manhã
Por favor, não persiga as nuvens,
os ritos, os templos
A xota dela prendeu-o
como uma morna e amigável
mão.
“Tudo bem.
Todos os seus amigos estão aqui.”
Quando vou vê-los?
“Depois de ter comido”
Estou sem fome
“Quer dizer, depois de ser espancado”
Riacho de prata, grito prateado,
impossível concentração
Aí vêm os comediantes
Veja como eles riem
Como eles dançam
uma dança estranha
Olhe seus gestos
Quanto aprumo
Ao público!
Palavras veladas
Palavras rápidas
Palavras-bengalas
Plante-as
Elas crescerão
Observe como tremem
Prefiro ser um
homem-palavra
a um homem-pássaro
Cobrarei
Ninguém se manda
s/ morrer com uma grana
Vou ter que repetir?
Vou ter que gritar? Você se ligou?
S/ grana: nada de comida!
Serei o irlandês baderneiro
metendo, na boa, meu bico
no pico dos poderes
Oh, garota, desmanche
esse penteado cafona!
Ah, mas que mente careta!
Pecados nas moitas
Vistos pelas persianas
Ela fareja o prejuízo
no meu colarinho novo
Prosa arrogante
Amarrada numa rede de busca rápida
Daí a obsessão
Rápido se admite
o ritmo roubado
a mulher perdida
Mulheres do mundo, uni-vos!
Fazei do mundo um helldorado
Para a vasta vida libertina
Ha! Ha!! Ha!!!
Corte sua garganta
A vida é uma pândega
Sua esposa num canal!
A mesma nau!!
Aí vem o cabrual!!!
Sangue Sangue Sangue Sangue
Estão fazendo piada
do nosso universo
III
Caixa de fósforos
Você é mais real que eu
Vou te queimar & te libertar
Lágrimas amargas derramadas
Grande e inesquecível
lisonja
IV
A lava doente e quente fluiu
Enferrujando & borbulhando
A cara de papel.
Máscara-espelho, amo seu reflexo
Sofreu lavagem cerebral durante 4 horas
O Tenente se confundiu de novo
“Pronto pra falar?”
“Não senhor” – foi tudo que disse
Volte à ginástica
Pacífica
Meditação
Na base aérea do deserto
olhando pelas venezianas
um avião
uma flor do deserto
um gibi bacana
O resto do Mundo
é imprudente & perigoso
Veja os
bordéis
Filmes de foda
Classe Z
V
Um navio deixa o porto
cavalo selvagem de outra floresta
osso do desejo
avilta a raposa de metal
***
Abaixo, uma leitura do próprio Morrison e, mais abaixo, o poema original. Abrax!
AN AMERICAN PRAYER Do you know the warm progress/ under the stars?/ Do you know we exist?/ Have you forgotten the keys/ to the Kingdom/ Have you been borne yet/ & are you alive?// Let’s reinvent the gods, all the myths/ of the ages/ Celebrate symbols from deep elder forests/ (Have you forgotten the lessons/ of the ancient war)// We need great golden copulations // The fathers are cackling in trees of the forest/ Our mother is dead in the sea// Do you know we are being led to/ slaughters by placid admirals/ & that fat slow generals are getting/ obscene on young blood// Do you know we are ruled by T.V./ The moon is dry blood beast/ Guerrilla bands are rolling numbers/ in the next block of green vine/ amassing for warfare on innocent herdsmen / who are just dying// O great creator of being/ grant us one more hour to/ perform our art/& perfect our lives// The moths & atheists are doubly divine/ & dying/ We live, we die/ & death not ends it/ Journey we more into the/ Nightmare/ Cling to life/ our passion’d flower/ Cling to Cunts & cocks/ of despair/ We got our final vision/ by clap/ Columbus groin got/ filled w/green death// (I touched her thigh/ & death smiled)// We have assembled inside this ancient/ & insane theatre/ To propagate our lust for life/ & flee the swarming wisdom/ of the streets/ The barns are stormed/ The windows kept/ & only one of all the rest/ To dance & save us/ W/the divine mockery/ of words/ Music inflames temperament// (When the true King’s murderers/ are allowed to roam free/ a 1000 Magicians arise /in the land)// Where are the feasts/ we were promised/ Where is the wine/The New Wine/ (dying on the vine)// resident mockery/ give us an hour for magic/ We of the purple glove/ We of the starling flight/ & velvet hour/ We of arabic pleasure’s breed/ We of sundome & the night// Give us a creed/ To believe/ A night of Lust/ Give us trust in The Night// Give of color/ hundred hues/ a rich mandala/ for me & you// & for your silky/ pillowed house/ a head, wisdom/ & a bed// Troubled decree/ Resident mockery/ has claimed thee// We used to believe/ in the good old days/ We still receive/ In little ways// The Things of Kindness/ & unsporting brow/ Forget & allow/ Did you know freedom exists/ in school book/ Did you know madmen are/ running our prisons/ w/in a jail, w/in a gaol/ w/in a white free protestant/ Maelstrom// We’re perched headlong/ on the edge of boredom/ We’re reaching for death/ on the end of a candle/ We’re trying for something/ That’s already, found us// We can invent Kingdoms of our own/ grand purple thrones, those chairs of lust/ & love we must, in beds of rust// Steel doors lock in prisoner’s screams/ & muzak, AM, rocks their dreams/ No black men’s pride to hoist the beams/ while mocking angels sift what seems// To be a collage of magazine dust/ Scratched on foreheads of walls of trust/ This is just jail for those who must/ get up in the morning & fight for such// unusable standards/ while weeping maidens/ show-off penury & pout ravings for a mad/ staff// Wow, I’m sick of doubt/ Live in the light of certain/ South// Cruel bindings/ The servants have the power/ dog-men & their mean women/ pulling poor blankets over/ our sailors/ (& where were you in our/ lean hour)/ Milking your mustache?/ or grinding a flower?/ I’m sick of dour faces/ Staring at me from the T.V./ Tower. I want roses in/ my garden bower; dig?/ Royal babies, rubies/ must now replace aborted/ Strangers in the mud/ These mutants, blood-meal/ for the plant that’s plowed// They are waiting to take us into/ the severed garden/ Do you know how pale & wanton thrillful/ comes death on a stranger hour/ unannounced, unplanned for/ like a scaring over-friendly guest you’ve/ brought to bed/ Death makes angels of us all/ & gives us wings/ where we had shoulders/ smooth as raven’s/ claws// No more money, no more fancy dress/ This other kingdom seems by far the best/ until its other jaw reveals incest// & loose obedience to a vegetable law/ I will not go / Prefer a feast of friends/ To the Giant family// II // Great screaming Christ/ Upsy-daisy/ Lazy Mary will you get up/ upon a Sunday morning// “The movie will begin in 5 moments”/ The mindless Voice announced/ “All those unseated, will await/ The next show”// We filed slowly, languidly/ into the hall. The auditorium/ was vast, & silent./ As we seated & were darkened/ The Voice continued:// “The program for this evening/ is not new. You have seen/ This entertainment thru & thru./ You’ve seen your birth, your/ life & death; you might recall/ all of the rest – (did you/ have a good world when you/ died?) – enough to base/ a movie on?”// An iron chuckle rapped our/ minds like a fist.// I’m getting out of there/ Where’re you going?/ To the other side of morning/ Please don’t chase the clouds/ pagodas, temples// Her cunt gripped him/ like a warm friendly/ hand.// “It’s all right./ All your friends are here.”// When can I meet then?/ “After you’ve eaten”/ I’m not hungry “O, we meant beaten”/ Silver stream, silvery scream,/ impossible concentration// Here come the comedians/ look at them smile/ Watch them dance/ an indian mile// Look at them gesture/ How aplomb/ So to gesture everyone// Words dissemble/ Words be quick/ Words resemble walking sticks// Plant them/ They will grow/ Watch them waver so// I’ll always be/ a word-man/ Better than a birdman// But I’ll charge/ Won’t get away/ w/ out lodging a dollar// Shall I say it again/ aloud, you get the point/ No food w/ out fuel’s gain// I’ll be, the irish loud/ unleashed my beak/ at peak of powers// O girl, unleash/ your worried comb// O worried mind// Sin in the fallen/ Backwoods by the blind// She smells debt/ on my new collar// Arrogant prose/ Tied in a network/ of fast quest/ Hence the obsession// Its quick to admit/ Fast borrowed rhythm/ Woman came/ between them// Women of the world unite/ Make the world safe/ For a scandalous life// Hee Heee/ Cut your throat/ Life is a joke// Your wife’s in a moat/ The same boat/ Here comes the goat// Blood Blood Blood Blood/ They’re making a joke/ of our universe// III / Matchbox/ Are you more real than me/ I’ll burn you, & set you free/ Wept bitter tears/ Excessive courtesy/ I won’t forget// IV / A hot sick lava flowed up,/ Rustling & bubbling./ The paper face./ Mirror-mask, I love your mirror.// He had been brainwashed for 4 hrs./ The LT. puzzled in again/ “ready to talk”/ “No sir” – was all he’d say./ Go back to the gym./ Very peaceful/ Meditation// Air base in the desert/ looking out venetian blinds/ a plane/ a desert flower/ cool cartoon// The rest of the World / is reckless & dangerous/ Look at the/ brothels/ Stag films/ Exploration// V / A ship leaves port/ mean horse of another thicket/ wishbone of desire /decry the metal fox
Do livro An American Night: The Writings of Jim Morrison. Volume 2. Vintage Books: New York, 1991

2 de agosto de 2013

DARK MEDIEVAL TIMES


(Para todos os corajosos vândalos do meu tempo)

os vândalos botaram vinagre na vã filosofia
botaram de volta a revolta na rua, poesia na poesia

ruído contra a oligarquia, a voz dos vândalos
perfuma o concreto, o asfalto, o tédio, o sândalo

o enfrentamento, o atrito, única resposta válida
ao mundo vago, gago, sombrio, reaça, cara pálida

(de dentro do apartamento o covarde alardeia
seu mimimi, sua burrice, cu na mão & pança cheia)

os vândalos sabem que tanto o preço da passagem
quanto a propriedade são uma imensa ladroagem

contra a bundamolismo do mundo funcionário
o caleidoscópico hálito dos carbonários

revolta, sangue & vinagre, não se perca de si
não se esqueça de si, não amoleça, a rua é logo ali

Fabiano Calixto

Por que você faz poesia?

(de uma entrevista de Joaquim com canção de Adriana)

para chatear os imbecis
para não ser aplaudido
para viver à beira do abismo
para correr o risco
para que conhecidos e desconhecidos se deliciem
porque ouvi "The Long an Winding Road"
para insultar os arrogantes e poderosos quando ficam como
cachorros dentro d´água no escuro do poema
porque de outro jeito a vida não vale a pena

Fabiano Calixto (do livro A canção do vendedor de pipocas)

23 de julho de 2013

Versos de circunstância

da noite mais azeda
do meio da treta
do atrito gritando na greta
do leblon
(brumas de Avalon
na babylon de cabral, el cabrón)
um vândalo urra:
“i am the one
orgasmatron!”

na cidade de são paulo
(metrópole por um fio,
desativada, reacionária & vil
abastada de grana & rivotril)
lemos todos (anotando)
uma escrota escritarada
serva, suja, súdita
que não diz nada
ossos do difícil ofício
de levar a vida
na base da porrada

pra desopilar a cuca
um café, umas tragadas
ventania & bem-te-vi
prosa minada
com algumas risadas

dizem que com pêlos
não pega nada
mas, se lisinha
é de morte a picada

aranha peluda
aranha pelada

Fabiano Calixto

Do Blog Meu pé de Laranja Mecânica