Escrevo agora em segredo
No horário do trabalho
Ali do lado
outro funcionário
Parece me olhar
Quando olho
ele logo vira o rosto
vira o monitor
franze a testa
ou assim eu imagino
Escrevo meio escondido
Como um revolucionário
Que espera o freio de emergência
Aquele puxado de surpresa
Escrevo de sobressalto
olhando por sobre os ombros
Olhando de lado
Sempre sério
muito calado
Escrevo assim em silêncio
Sem dizer nomes
espero pela hora de partir
Escrevo tão intensamente
que penso que esse silêncio
é no fundo a vontade de cada um
compartilhar este secreto poema
Agora estariam todos
como eu
a escrever poemas?
sonetos?
ou apenas esperam o romper das horas
o silêncio desta noite que nos atravessa a todos
como uma mão misteriosa
que põe a tocar um sino
como nos dias de escola
quando finalmente ao fim do dia
soava o sinal para o recreio?
Salvador Passos