A Caverna

Esta é a caverna, quando a caverna nos é negada/Estas páginas são as paredes da antiga caverna de novo entre nós/A nova antiga caverna/Antiga na sua primordialidade/no seu sentido essencial/ali onde nossos antepassados sentavam a volta da fogueira/Aqui os que passam se encontram nos versos de outros/os meus versos são teus/os teus meus/os eus meus teus /aqui somos todos outros/e sendo outros não somos sós/sendo outros somos nós/somos irmandade/humanidade/vamos passando/lendo os outros em nós mesmos/e cada um que passa se deixa/essa vontade de não morrer/de seguir/de tocar/de comunicar/estamos sós entre nós mesmos/a palavra é a busca de sentido/busca pelo outro/busca do irmão/busca de algo além/quiçá um deus/a busca do amor/busca do nada e do tudo/qualquer busca que seja ou apenas o caminho/ o que podemos oferecer uns aos outros a não ser nosso eu mesmo esmo de si?/o que oferecer além do nosso não saber?/nossa solidão?/somos sós no silêncio, mas não na caverna/ cada um que passa pinta a parede desta caverna com seus símbolos/como as portas de um banheiro metafísico/este blog é metáfora da caverna de novo entre nós/uma porta de banheiro/onde cada outro/na sua solidão multidão/inscreve pedaços de alma na forma de qualquer coisa/versos/desenhos/fotos/arte/literatura/anti-literatura/desregramento/inventando/inversando reversamento mundo afora dentro de versos reversos solitários de si mesmos/fotografias da alma/deixem suas almas por aqui/ao fim destas frases terei morrido um pouco/mas como diria o poeta, ninguém é pai de um poema sem morrer antes

Jean Louis Battre, 2010

29 de abril de 2020

chegamos rápido demais ao matadouro

chegamos rápido demais ao matadouro
a casa de máquinas é uma câmara de ideias fixas
nos pratos serviam engrenagens com sabor de morte
os ônibus chegram nos horários
mas nunca nos levaram onde queríamos ir
não sei bem ao certo onde quero chegar
mas sei que os ônibus não servem
Salvador Passos

27 de abril de 2020

as palavras duras

as pedras ardem feito dores em meu peito
cravam pregos nos meus dentes
maestros destros regem suas orquestras mortas
faces nuas
desmoronam
mestres entre os surdos
nos remetem entre os torpes absurdos
à palavra muda
seca
dita
dura

Salvador Passos

avulso

as palavras estavam pálidas de silêncio
mar aberto entre as páginas brancas
margens à deriva
mastros mortos que afundam
ondas breves diluindo tudo
e la dentro
bem no fundo deste mar confuso
espuma um dizer avulso

Salvador Passos

26 de abril de 2020

Nós vivemos felizes durante a guerra

Questão
O que é um homem?
Uma quietude entre dois bombardeios.
§
Nós vivemos felizes durante a guerra

E quando eles bombardearam a casa das outras pessoas,
nós
protestamos
mas não o suficiente, nos opusemos a eles mas não
o suficiente, eu estava
na minha cama, ao redor da minha cama a América
caía: casa invisível após casa invisível após
casa invisível.
Eu levei uma cadeira para fora e assisti ao sol.
No sexto mês
de um desastroso reino na casa da grana
na rua da grana na cidade da grana no país da grana,
nosso grande país da grana, nós (perdoem-nos)
vivemos felizes durante a guerra.

§

Soldados Miram em Nós

Eles atiram
enquanto o bando de mulheres foge dentro das narinas dos holofotes
—que Deus tenha uma foto disso —
no ar brilhante da praça, soldados arrastam o corpo de Petya e sua cabeça
bate nas escadas. Eu
sinto através da camisa da minha esposa o formato
da nossa filha.
Soldados arrastam Petya escada acima e os cães sem teto, magros como filósofos,
compreendem tudo e latem e latem.
Eu, agora na ponte, sem a camuflagem da fala, um corpo
envolvendo o corpo da minha esposa grávida—
Esta noite
nós não morremos e não morremos,
a terra está fixa,
um helicóptero encara minha esposa—
Na terra
um homem não pode mostrar o dedo para o céu
porque cada homem já é
um dedo virado para o céu.
§

O que são Dias

Como homens de meia idade,
os dias de maio
caminham até prisões.
Como homens jovens eles caminham até prisões,
sobretudos
jogados por cima de seus pijamas.

§

Em um Tempo de Paz

Habitante da terra por quarenta e poucos anos
certa vez me encontrei em um país pacato. Eu vejo os vizinhos abrirem
seus celulares para ver
um policial exigindo a carteira de motorista de um homem. Quando o homem alcança sua carteira, o policial
atira. Na janela do carro. Atira.
É um país pacato.
Colocamos nossos celulares no bolso e vamos.
Ao dentista,
buscar as crianças na escola,
comprar xampu
e manjericão.
O nosso país é um país em que um menino assassinado pela polícia fica na calçada
por horas.
Nós vemos em sua boca aberta
a nudez
de toda nação.
Nós vemos. Vemos
outros verem.
O corpo do menino fica na calçada exatamente como o corpo de um menino—
É um país pacato.
E isto corta os corpos dos nossos cidadãos
sem esforço, do jeito que a esposa do Presidente apara suas unhas do pé.
Todos nós
ainda temos que fazer o desgastante trabalho de consultas no dentista,
de lembrar-se de fazer
uma salada de verão: manjericão, tomates, é uma alegria, tomates, um pouco de sal.
Este é um tempo de paz.
Eu não escuto tiros,
contudo vejo os pássaros se refrescando nos quintais dos subúrbios. Quão claro
é o céu
conforme a avenida gira em seu eixo.
Quão claro é o céu (perdoem-me) quão claro.

Ilya Kaminsky




25 de abril de 2020

O tempo que passou fora do tempo

O tempo que passou
fora do tempo,
escreveu meu nome
na paisagem
                     dos entes
que me foram
sem que eu fosse.


Sou o que partilha
o sangue onírico
desse rio de sobras
de etnias

Foi preciso ungir ervas
ao couro
e cozer o esquecimento
em fogo brando;

foi preciso erguer
palavras finas
entre o desejo
e os cães da esquina.

(Eu vi a chuva escorrer
do teto das casas velhas
para crescer onde a vida
é barro.)

E lavrar a língua dos mortos
Que de regresso
                        açoita a lira,
no tempo que passou
sem que eu passasse.


Salgado Maranhão  
 


17 de abril de 2020

POEMA COM DATA DE VALIDADE (CONSUMIR ATÉ 18/04/16)

País em coma induzido
Doente de expectativas
Todos cheios de certezas
Que não convencem ninguém.
Respiração asmática suspensa
Frio glacial na barriga
“Não vai ter golpe!”
Gritam alguns
“Mas não é golpe!”
Gritam outros
E a única certeza
É que a ressaca da segunda-feira
Vai superar aquela vez
Em que você bebeu tanto vinho
Que queria vomitar o cérebro
E morrer no chão do banheiro
Não haverá vencedores nem vencidos
Apenas ideólogos fudidos, todos nós
Marionetes do dinheiro fácil
Vítimas do trabalho árduo
Testemunhas de nossa própria destruição.


Rodrigo Santos

Nada parece tão antigo quanto o passado recente


Screen Recording 2020-04-10 at 64347 PM from jp cuenca on Vimeo.

4 de abril de 2020

oceano

um herói desmemoriado
percorre ilhas
busca seu caminho de volta
se perde no silêncio do seu próprio sonho:
- quem sou eu?
pergunta nas esquinas

não importa o nome
o herói é uma ilha
e toda ilha é conflito entre terra e mar
os oceanos avançam
devorando as ilhas
querem tragar os pedaços de terra
que se desprendem do seu âmago
 
o corpo é um naufrágio
um escafandro que habita o inominável

no oceano que engole o homem
haverá um sono de esquecimentos
que trará um nome inaudito
anterior à morte
um nome que jamais será enunciado
outra ilha resistindo
ainda que não haja palavra
para descrever o que se dá no silêncio das coisas
e o silêncio será como uma ilha dentro de outra ilha
numa sucessão infinita de desertos
 
Salvador Passos

arqueologia delirante 2

no fundo do terreno
havia o museu dos mortos

árvores avançam
infiltrando-se por dentro das paredes

as paredes vivas
com artérias
estourando os rebocos
engolindo as janelas
aflorando
na epiderme dos tijolos

as escadas saltam
como costelas quando em corpos magros
desejam o que há de horizonte no cansaço
carregam o peso dos que sobem
alimentam a lembrança com seu abandono
é preciso lembrar todas as tragédias
inaugurar uma arqueologia delirante
que atinge as camadas tectônicas
para decompor o campo
compor com lascas
estranhas barricadas

por trás do som
habita a mecânica do hino

qual o jogo que está em jogo?

os uniformes uniformizam

ao logo da fronteira invisível
fileiras e fileiras de sentinelas cegos
que não raro perdem a esportiva
Salvador Passos