A Caverna

Esta é a caverna, quando a caverna nos é negada/Estas páginas são as paredes da antiga caverna de novo entre nós/A nova antiga caverna/Antiga na sua primordialidade/no seu sentido essencial/ali onde nossos antepassados sentavam a volta da fogueira/Aqui os que passam se encontram nos versos de outros/os meus versos são teus/os teus meus/os eus meus teus /aqui somos todos outros/e sendo outros não somos sós/sendo outros somos nós/somos irmandade/humanidade/vamos passando/lendo os outros em nós mesmos/e cada um que passa se deixa/essa vontade de não morrer/de seguir/de tocar/de comunicar/estamos sós entre nós mesmos/a palavra é a busca de sentido/busca pelo outro/busca do irmão/busca de algo além/quiçá um deus/a busca do amor/busca do nada e do tudo/qualquer busca que seja ou apenas o caminho/ o que podemos oferecer uns aos outros a não ser nosso eu mesmo esmo de si?/o que oferecer além do nosso não saber?/nossa solidão?/somos sós no silêncio, mas não na caverna/ cada um que passa pinta a parede desta caverna com seus símbolos/como as portas de um banheiro metafísico/este blog é metáfora da caverna de novo entre nós/uma porta de banheiro/onde cada outro/na sua solidão multidão/inscreve pedaços de alma na forma de qualquer coisa/versos/desenhos/fotos/arte/literatura/anti-literatura/desregramento/inventando/inversando reversamento mundo afora dentro de versos reversos solitários de si mesmos/fotografias da alma/deixem suas almas por aqui/ao fim destas frases terei morrido um pouco/mas como diria o poeta, ninguém é pai de um poema sem morrer antes

Jean Louis Battre, 2010

20 de julho de 2015

Para atingir a graça

Para atingir a graça (hmm...)
e ganhar em estilo
é preciso pedir licença aos urubus
guardiães desta pousada construída sobre os rochedos
no fim da praia.
E considerar a relevância
de a dona do lugar ser espírita
e ouvir forró bem alto à noite
e berrar quando a bebedeira iniciada ao poente
entra em declínio e inevitavelmente
falha.

Para atingir a graça (ah)
e ganhar em estilo
fazer amor com as portas abertas para o terraço
(vocês estão no melhor quarto porque são os únicos hóspedes)
com certa violência recebendo a brisa
com cheiro de peixe e passos
dos tais urubus no telhado.

Para atingir a graça ( )
e ganhar em estilo
o domingo escorre
por trás dos barcos que balançam como autistas na enseada
aí mandar uns dois ou três sujeitos tomarem no cu
numa pequena série de interurbanos;
envolver-se na escuridão
(e no silêncio, se a dona da pousada o permitir)
e imaginar
por quê pelos demônios
alguém inventou que o nascer do sol
se chamará segunda-feira.

Danilo Monteiro

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