A Caverna
Jean Louis Battre, 2010
9 de julho de 2026
2 de julho de 2026
Tique-Taque
Tique-Taque
tique-taque, um som distante
cada vez mais perto, tique-taque
tique-taque nesta página só vai
acontecer isso mesmo, de modo
que o melhor é passar para a próxima
Leonardo Gandolfi
Eterno espanto
Mas que haverá com a Lua, que sempre que a gente a olha, é com um novo espanto?
Mário Quintana
28 de maio de 2026
O não-filosófico
O não-filosófico está talvez mais no coração da filosofia que a própria filosofia, e significa que a filosofia não pode contentar-se em ser compreendida somente de maneira filosófica ou conceitual. Mais importante do que o pensamento é o que "dá a pensar"; Mais mais importante do que o filósofo é o poeta.
Gilles Deleuze
Poesia pode ser que seja fazer outro mundo
Eles falavam nas aulas:
Quem se aproxima das origens se renova
Os mestres pregavam que o fascínio poético vem das raízes da fala(...).
Manoel de Barros
28 de janeiro de 2026
segredo
Escrevo agora em segredo
No horário do trabalho
Ali do lado
outro funcionário
Parece me olhar
Quando olho
ele logo vira o rosto
vira o monitor
franze a testa
ou assim eu imagino
Escrevo meio escondido
Como um revolucionário
Que espera o freio de emergência
Aquele puxado de surpresa
Escrevo de sobressalto
olhando por sobre os ombros
Olhando de lado
Sempre sério
muito calado
Escrevo assim em silêncio
Sem dizer nomes
espero pela hora de partir
Escrevo tão intensamente
que penso que esse silêncio
é no fundo a vontade de cada um
compartilhar este secreto poema
Agora estariam todos
como eu
a escrever poemas?
sonetos?
ou apenas esperam o romper das horas
o silêncio desta noite que nos atravessa a todos
como uma mão misteriosa
que põe a tocar um sino
como nos dias de escola
quando finalmente ao fim do dia
soava o sinal para o recreio?
Salvador Passos
2 de dezembro de 2025
Os livros talvez não sejam necessários
"Os livros talvez não sejam necessários; a princípio bastavam os mitos: podiam encerrar toda uma religião. O povo encantava-se com a aparência das fábulas, e adorava sem compreender; os sacerdotes atentos, debruçados sobre a profundidade das imagens, penetravam lentamente o intimo sentido do hieróglifo. Depois quiseram explicar; os livros amplificaram os mitos alguns mitos - mas alguns mitos bastariam."
Andre Gide
[0 tratado de Narciso (Teoria do Simbolo), 1891]
22 de novembro de 2025
15 de novembro de 2025
Bendita Palavra Maldita
imagine se
por algum estranho motivo
a música parasse de tocar
e pudesse ser consumida
apenas através de partituras.
o mundo ia ficar mais triste
bem mais triste
isso aconteceu com a poesia.
afastada do corpo e da fala
confundida com a escrita
passou a ser monopólio
de um estreito círculo de iniciados
mas isso está mudando
isso está mudando
isso está mudando
Chacal
1 de outubro de 2025
Sempre
E sempre que vier a dor do ser
revirá o último cuspe, sabor de osso
a remoer o sonho
sempre que souber de quem lutara
nas guelras de mal dormidas batalhas
e no rilhar dos dentes se afogara
em meio a poentas e estúpidas mortalhas,
desse modo, e sempre que houver palavra
a ser cuspida por entre tanta ausência
e pelo humano pó de uma qualquer estrada
onde mortos se enovelam pelas selvas
de sementes e feras apagadas,
este estampido cego, o absurdo oco
de que me valho para que, pouco
a pouco, o poema se esvazie do carretel
de fúrias e no tempo perfaça. ovo
ainda mais vazio no vazar da espuma,
bile diária de quem perdeu o sonho.
inútil luz de sol sotoposto, último
agosto de um violino a arder o oculto rosto
Pois sempre inodora a flama que desdenha
de uma aurora que não mais desempenha
Afonso Henriques Neto
14 de agosto de 2025
A marcha das utopias
não era esta a independência que eu sonhava
não era esta a república que eu sonhava
não era este o socialismo que eu sonhava
não era este o apocalipse que eu sonhava
José Paulo Paes
6 de julho de 2025
Festa
Belchior datilografou
para si um a um
todos os versos
da Divina Comédia
Eu só queria saber
qual a sensação de colocar
aquelas palavras
naquela ordem disse ele
Leonardo Gandolfi
30 de maio de 2025
Vestígios
Tenho como hábito sublinhar palavras
Como quem traça rotas de fuga
No labirinto dos livros
Produzindo no silêncio de suas páginas
Um poema implícito
Perdido naquilo que está inscrito no escrito das coisas
Como se o poema fosse um espelho de silêncios
Eco quase inaudível
Ou animal selvagem
Aprisionado no fundo de uma trama
No centro de um labirinto
Como se os livros fossem uma espécie de oceano
Cheio de possibilidades em aberto
Pois quem escreve uma história deixa de escrever infinitas outras
Sempre deixando no seu rastro
Os vestígios de um naufrágio
Salvador Passos
11 de maio de 2025
Vigilantes noturnos
Os que fazem amor não estão apenas fazendo amor; estão dando corda ao relógio do mundo
Mário Quintana
30 de abril de 2025
22 de abril de 2025
Como me espanta o espanto
Como me espanta o espanto
do homem que senta ao meu lado
Veste terno de engenheiro
E pânico de funcionário
- Eu não leio O Marinheiro
poema quase dramático
José Carlos Capinan
17 de abril de 2025
Estrangeiro
O café tomado na esquina
- meio de lado
no balcão
a ponto de observar
a manhã que reproduz
e se mistura
em pernas rápidas
(decomposição do movimento)
O café pago no caixa
-troco. obrigado, cigarro na boca
de mais uma manhã
mais uma manhã
trocando olhares
medindo gestos
(somos todos estrangeiros
nesta cidade
neste corpo que acorda)
e não me misturo
- com essa gente,
não me misturo
Heitor Ferraz
7 de abril de 2025
XV
" Singing in silent spring: Birds respond to a half-century soundscape reversion during the COVID-19 shutdown "
Science, setembro de 2020
No livro Vida: Efeito-V
Carlito Azevedo
28 de março de 2025
Estelita
Salvador Passos
26 de fevereiro de 2025
Gesta da água
“Há sempre um copo de mar
para um homem navegar”
Jorge de Lima
Nesta grandíssima manhã
de primavera,
as portas
da minha casa
estão abertas
para a visita
fluida da beleza.
Altair é a susana da minha poesia
e da minha vida.
A solidão habitava o feiume
dos meus gestos e
querençoso eu esperava
o tempo.
Hoje caminho tardo
pelo vento oeste.
Meu coração vagueia
no mapa das ruínas
e infesto o campo dos
silêncios.
Cada ruído pressentido,
diz da alma.
Cada rastro revelado,
diz da vidência, essa
alegria
a se eternizar.
Mancham os céus de um cinza cruel
e morrem
os oceanos
em mim.
Eu que sempre
fui água,
mansidão
de peixes
e de siris.
Ser líquido
na chuva,
rio no mar naufragado.
Eu que sempre
fui água,
a escorrer
pelo sangue das marés.
Ó manhã
devastada no belo!
Assim é a ceia farta
dos maremotos
escondidos!
Queda,
quebra,
estrondo
elegia da natureza
encantada,
sou água!
Diego Mendes Souza