A Caverna

Esta é a caverna, quando a caverna nos é negada/Estas páginas são as paredes da antiga caverna de novo entre nós/A nova antiga caverna/Antiga na sua primordialidade/no seu sentido essencial/ali onde nossos antepassados sentavam a volta da fogueira/Aqui os que passam se encontram nos versos de outros/os meus versos são teus/os teus meus/os eus meus teus /aqui somos todos outros/e sendo outros não somos sós/sendo outros somos nós/somos irmandade/humanidade/vamos passando/lendo os outros em nós mesmos/e cada um que passa se deixa/essa vontade de não morrer/de seguir/de tocar/de comunicar/estamos sós entre nós mesmos/a palavra é a busca de sentido/busca pelo outro/busca do irmão/busca de algo além/quiçá um deus/a busca do amor/busca do nada e do tudo/qualquer busca que seja ou apenas o caminho/ o que podemos oferecer uns aos outros a não ser nosso eu mesmo esmo de si?/o que oferecer além do nosso não saber?/nossa solidão?/somos sós no silêncio, mas não na caverna/ cada um que passa pinta a parede desta caverna com seus símbolos/como as portas de um banheiro metafísico/este blog é metáfora da caverna de novo entre nós/uma porta de banheiro/onde cada outro/na sua solidão multidão/inscreve pedaços de alma na forma de qualquer coisa/versos/desenhos/fotos/arte/literatura/anti-literatura/desregramento/inventando/inversando reversamento mundo afora dentro de versos reversos solitários de si mesmos/fotografias da alma/deixem suas almas por aqui/ao fim destas frases terei morrido um pouco/mas como diria o poeta, ninguém é pai de um poema sem morrer antes

Jean Louis Battre, 2010
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22 de dezembro de 2015

Filhas (os) de porra nenhuma


Apago todas as minhas palavras com palavras,
já que não paro de falar,
que a tagarelice se opõe ao meu silenciar,
e é entre as palavras que encontro silêncio,
que abro um novo portal,
estou a empurrar a emperrada porta da existência,
The Doors 1967 rasgando os nenhum motivos
para manter vivo em mim o último passado
de paixões complexas,
Jim Morrison grita, eu grito,
grita Diego El Khouri e Alvaro Nassaralla,
grita Tiça Matta, grita Catarina Crystal,
grita Rosa Maria Kapila
e todos os outros filhos da argila

Nascidos no barro, na borra,
na mancha alucinada William Burroughs,
nascidos e morridos,
em decomposição composição cósmica humana

Viemos da fumaça da mais deliciosa maconha,
agarrados no rabicho, no filete da lâmpada,
ou mesmo das catapultas das paredes
do cérebro metáfora Renato Russo...
e o Doors segue solto
pelas flanelas orientais
que nos acaricia
o sexo e os ouvidos

Mas voltando a tagarelice,
e o silêncio estrondo ejaculado por ela,
voltando ao pináculo da alta floresta do darma
de nada fazer sentados nus no muro das herdades

Pelos meandros dos esmiuçados olhos
que nos unem ao porrete, a porra,
ao dramático e arrombante rock sem pai nem mãe

E foda-se essa civilização eunuca
gestada pela gosma televisiva;
que todos se dopem com essas palavras
arrombadas filhas de porra nenhuma


Edu Planchêz 

21 de dezembro de 2015

Sarau do Escritório

VozeRio

 

Desde 2010, integrantes de um grupo de teatro sem sede marcavam suas reuniões nas mesas do Bar da Cachaça, tradicional ponto de encontro de artistas e produtores no bairro da Lapa, região central do Rio de Janeiro. Das conversas no escritório, como o pequeno botequim é conhecido, viram pipocar movimentos como a Primavera Árabe, o 15M, e o Occupy Wall Street, que só estimulavam suas inquietudes.

Vindos de diferentes regiões como Nilópolis, Leblon, Tijuca, Olaria, Senador Camará, Vidigal, São João de Meriti e Glória, pulavam os muros de dois Cieps em Bangu para ensaiar, em meio a usuários de crack, e crianças que surgiam para acompanhar as encenações. Apresentavam espetáculos em praças da Favela Jardim Batan, e criavam metodologias na Cidade das Crianças, no Aterro do Flamengo. Entretanto, ainda faltava uma ocupação definitiva.

Logo após as Jornadas de Junho, decidiram que não poderiam mais viver da mesma forma, reclamando do poder público, do sistema, ou da ausência de espaços para trabalhar com arte, e resolveram arregaçar as mangas.

Surgia assim, em novembro de 2013, o Sarau do Escritório, um espaço de experimentação artística na Praça João Pessoa – a esquina do Bar da Cachaça -, que abre caminho para o encontro de atores e agentes culturais de vários territórios.

Em dois anos de atividades, o evento já recebeu mais de 800 artistas. Gente das artes visuais, da música, poesia, cinema, circo, teatro, intervenção e performance. De um chinês cantando folk em mandarim, a um músico de Recife que faz um som com influências latinas, passando por uma moradora do Centro portadora do Mal de Alzheimer, e que não recitava suas poesias em público há 50 anos. Tudo cabe no maior espaço de co-working artístico do Rio.

O projeto idealizado pelo Coletivo Peneira, é realizado pela Mufa Produções, um coletivo de jovens artistas-produtores que trabalham com pouco ou nenhum recurso financeiro, investindo do próprio bolso, e apostando em lógicas co-produtivas para transformar seus sonhos em realidade.

A saga de quem faz cultura nas ruas do Rio



Realizamos todo mês o Sarau do Escritório com produção de guerrilha: sem patrocínio, sem financiamento, sem nada. E com muita burocracia: precisamos passar por 11 fases e perder várias vidas até chegar ao chefão — o Cartório da Prefeitura — e zerar o jogo, conseguindo o Alvará Transitório.
Realizar um evento cultural em espaço público no Rio é dureza!
Antes de tudo, é preciso ter paciência de Jó, perseverança, engolir vários sapos, ter disponibilidade de tempo e grana.
Desde novembro de 2013, realizamos o Sarau do Escritório na pracinha João Pessoa, aquela da esquina do Bar da Cachaça, na Lapa. O sarau é um espaço de experimentação artística pelo qual já passaram mais de mil artistas. Gente das artes visuais, da música, poesia, cinema, circo, teatro, intervenção e performance. De um chinês cantando folk em mandarim a um músico de Recife que faz um som com influências latinas, passando por uma moradora do Centro portadora de Alzheimer que não recitava suas poesias em público há cinquenta anos.
Tudo isso é feito com uma produção de guerrilha. Sem patrocínio, sem financiamento, sem nada. E com muita burocracia: precisamos passar por 11 fases e perder várias vidas até chegar ao chefão — o Cartório da Prefeitura — e zerar o jogo, conseguindo o Alvará Transitório.
A peregrinação começa um mês antes da realização do evento, que, no nosso caso é mensal — o sarau ocorre na última quinta-feira do mês.
1ª fase: Subprefeitura do Centro e Centro Histórico (rua da Constituição, 34). Lugar onde damos entrada na Consulta Prévia de Eventos. Em tese, vencer essa etapa levaria três dias úteis. Em tese... Porque na real o lance é bem diferente, e esse trâmite (um carimbo e uma assinatura) pode levar mais de vinte dias.
Mas, se fosse só isso, estava suave. Muitas vezes, somos desrespeitados por servidores públicos. Já ouvimos de funcionários as seguintes barbaridades:
  • “Conseguir essa autorização em dez dias é a mesma coisa que querer tirar leite dos meus peitos. Impossível! Não vai rolar.”
  • "Você não está me vendo aqui, eu sou um holograma, e estou de férias!"
  • "Tá achando o atendimento ruim? Mande um e-mail para o subprefeito e reclame!" — sendo que a responsável pelo tal e-mail é a mesma pessoa que sugeriu a queixa.
O mais comum, contudo, tem sido a seguinte frase (e suas variantes): “Ainda não está assinado, volte amanhã.”
Aí você volta amanhã, e pedem para retornar na semana seguinte. Na semana seguinte você volta, e informam que só com o Fulano de Tal, mas o Fulano está na rua. Você aguarda, e ele não volta... E por aí vai.
2ª fase: Com o formulário carimbado, partimos para a Fundação Parques e Jardins (Campo de Santana). O prazo também é de até três dias úteis para a entrega do “nada a opor”. Geralmente eles cumprem o prazo.
3ª fase: Na 5ª DP (Gomes Freire), solicitamos o “nada a opor” do Lapa Presente, aquela polícia “especial” do bairro. Isso leva uns cinco dias.
4ª fase: Não podemos esquecer a Policia Militar, então temos de ir até o 5° Batalhão (Praça da Harmonia) para dar entrada em mais um documento. O prazo também é de cinco dias, mas às vezes demora quinze.
5ª fase: Depois de passar pelas autoridades policiais, vamos até o Corpo de Bombeiros (rua do Senado, 122, 2º pavimento, Centro). Eles levam uma semana para entregar a autorização, mas para isso solicitam uma série de documentos (os mesmos pedidos para grandes eventos):
  • Dois jogos de plantas com “layout” do evento, em escala ou cotada, no padrão ABNT, devidamente assinada por engenheiro ou arquiteto habilitado, para análise e aplicação de medidas de segurança contra incêndio;
  • Pagamento do emolumento DAEM (R$60) em uma agência da rede Itaú;
  • Duas cópias do emolumento DAEM pago;
  • Formulário de requerimento padrão, devidamente preenchido;
  • Xerox da identidade do responsável pelo evento;
  • Xerox do comprovante de residência do responsável pelo evento;
  • Questionário padrão para eventos (a ser retirado na SST/4º GBM), devidamente respondido e assinado pelo responsável;
  • ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) do serviço de elétrica assinado por um engenheiro responsável;
  • Cópia da carteira do CREA/RJ do responsável pela emissão das ARTs que compõem o processo;
  • Certidão de registro emitida pelo CREA/RJ certificando que o profissional encontra-se registrado e com as contribuições junto a CREA/RJ em dia;
  • Nota fiscal de compra ou aluguel de extintores.
Para atender a essas exigências, temos de pagar um engenheiro responsável e alugar os extintores.
6ª fase: Não, ainda não acabou! Ainda falta o “nada a opor” da Secretaria de Ordem Pública (SEOP), que fica no Piranhão (o Centro Administrativo da Prefeitura, na avenida Presidente Vargas).
7ª fase: Solicitamos o ponto de luz à Rioluz (rua Voluntários da Pátria, em Botafogo). Para tal, pagamos uma taxa de instalação de R$ 100 (por ponto), juntamente com a apresentação do ART do engenheiro elétrico.
8ª fase: Pagamos a taxa de consumo de luz na Light (Centro). Geralmente algo em torno de R$ 30.
9ª fase: Para deixar a Pracinha João Pessoa limpa (já que só há duas papeleiras em quatro esquinas) vamos à Comlurb (munidos de uma cartinha + Consulta Prévia), em São Cristóvão, e solicitamos algumas caçambas de lixo e garis para o final do evento.
10ª fase: Inspetoria, um departamento da Prefeitura (Praça Pio X, na Candelária) completamente sujo, empoeirado, com computadores que não funcionam — todas as máquinas da recepção tem um papel colado há mais de seis meses que informa “em manutenção” —, e funcionários que não estão dispostos a trabalhar. Lá, entregamos uma cacetada de papéis, e somos encaminhados para outro lugar...
11ª fase: Vamos ao Cartório da Prefeitura (de novo no Centro Administrativo, o Piranhão), e depois à Inspetoria novamente, que (enfim!) libera o Alvará Transitório, ou o grande prêmio do jogo da produção cultural.
Com pompa e promessas de “desburocratização”, a Prefeitura do Rio lançou em outubro deste ano um aditivo no site carioca.rio.rj.gov.br, o “Carioca Digital”.
É a compilação de todos, ou quase todos (1ª fase, 2ª fase, 6ª fase, 10ª fase e 11ª fase) os pedidos de “nada a opor” em um sistema virtual.
Logo descobrimos que, diferentemente do Rio Poupa Tempo, do estado, os órgãos de outras esferas não estão integrados, assim como a Rioluz e a Comlurb, pertencentes ao município.
Ainda assim, o sistema digital seria um avanço, uma luz no fim do túnel, e um alívio nos bolsos cansados de gastar passagens para lá e para cá, em busca de um alvará. Seria, não fossem dois motivos simples:
- Quem diz se o nosso evento de rua pode ou não acontecer é a Secretaria de Ordem Pública (SEOP), que, por sua vez, é comandada por um capitão da Polícia Militar, e não pela Secretaria de Cultura (????).
- Ainda há o fato de a liberação do Alvará Provisório estar demorando mais de dois meses. Sim, mais de dois meses. Um tempo superior ao sistema antigo, analógico, de papel.
Nós, por exemplo, estamos com dois pedidos de Consulta Prévia (um para dezembro e o outro para janeiro) atravancados no sistema desde outubro. A justificativa:
“Somos dois funcionários para avaliar mais de três mil pedidos de toda a cidade. Estamos trabalhando depois do expediente, durante a madrugada, aos finais de semana... Tudo isso para tentar dar conta, mas está complexo”, desabafou um dos funcionários do setor da SEOP/Carioca Digital.
Vale ressaltar que, enquanto o Alvará Transitório não é liberado, não podemos dar entrada na Polícia Civil, Polícia Militar, Bombeiros, Rioluz e Comlurb, já que não existe mais papel. É a desburocratização prestando um desserviço.
Ah: com isso, ganhamos também mais uma taxa obrigatória. A TUAP (Taxa de Uso de Área Pública), no valor de R$ 13,60.
Após a “análise dos técnicos” e com o Alvará Provisório deferido, temos que passar no Piranhão para pegar esse documento (pois o sistema ainda não permite imprimir em casa com a assinatura digital) e, em seguida, percorrer toda aquela peregrinação: 3ª fase, 4ª fase, 5ª fase, 7ª fase, 8ª fase e 9ª fase.
Um pequeno detalhe: Mesmo durante o processo on-line –- antes da liberação do Alvará Transitório e do pagamento da TUAP —, já tivemos que passar na SEOP algumas vezes, pois o sistema estava bugado. Como o telefone está sempre ocupado, só conseguimos resolver o problema presencialmente.
A real é que nós do Sarau do Escritório — e a grande maioria dos projetos de rua que acontecem no Rio de maneira independente –- estamos num limbo entre os eventos de pequeno porte (aqueles contemplados pela Lei do Artista de Rua) e os megaeventos milionários.
Não existe meio-termo. É um não-lugar. Um não-lugar que nos leva ao cumprimento das mesmas exigências que um Rock in Rio, ou de um Réveillon de Copacabana para dois milhões de pessoas.
Eis um resumo dos gastos que temos com burocracias para cada Sarau do Escritório:
  • Transporte (entre idas e vindas ao longo de um mês em diversos órgãos públicos) - R$80,00
  • Xerox (de todas as autorizações, documentos, certificados etc.) - R$15
  • Bombeiros (DAEM) R$60
  • Engenheiro (para preparar a planta baixa da praça, acompanhar e se responsabilizar por todos os trâmites relacionados à manutenção elétrica do evento) - R$300,00
  • Aluguel de três extintores de incêndio - R$150,00
  • Rioluz (instalação do ponto de luz) - R$100,00
  • Light (consumo de energia por edição) - R$30,00
  • TUAP (Taxa de Uso de Área Pública) - R$13,60
TOTAL: R$ 748,60
Esses são apenas os custos burocráticos. Some a isso o aluguel de equipamento de som, impressão de material para as exposições, divulgação, transporte de objetos do cenário y muchas cositas más...
A publicidade da Prefeitura alardeia: "A cidade que queremos ser não é feita daqueles velhos cartões postais, mas por quem ocupa as suas praças.” Então, alguma coisa está fora da ordem.
Enquanto isso, a vida segue, para quem persiste em fazer produção cultural nas ruas do Rio. No nosso caso, sem patrocínio.

5 de fevereiro de 2014

15-M

Escribir poesía contra el espanto.
Escribir poesía para sobreponernos al gris de la ciudad,
su maquinaria infernal, sus lágrimas negras.
Escribir poesía para que no haya olvido.
Escribir poesía para alejar este frío
y completar la otra mitad que buscamos.
Escribir poesía para reconocernos en los demás,
para no estar lejos.
Escribir poesía para hacer visibles las rosas azules
y la luz en los cuerpos.
Escribir poesía para abrir el paraíso, los abrazos
y el cielo prometido de la carne.
Escribir poesía para que no acabe todo como siempre.
Escribir poesía para iluminar las razones.
Escribir poesía para ganar esta guerra.
Escribir poesía para que todos sepan
que hemos venido a quedarnos.

Antonio Orihuela


La Sexualidad de las Moscas


La Sexualidad de las Moscas a 58ºF y 43% de humedad, es nula.» es el título de un folletín literario del que hemos publicado 46 números.

Ahora, con la fuerza colectiva que se respira gracias al 15M hicimos un llamamiento a nuestros poetas de cabecera y todos respondieron ipso facto. Como invitadas especiales, están Bartleby & Cía y Miguel Brieva con el «Espantosísimo y necesario acontecimiento en la ciudad de Madrid en los primeros días de la primavera de 2011».

Descarga, imprime y difunde!

2 de abril de 2013

Pós Aula: O que é a poesia? Com Chacal


A segunda aula da Universidade das Quebradas na Rocinha foi animadíssima. Com a presença do poeta Chacal, os novos quebradeiros participaram de uma discussão que começou em torno da poesia e terminou num debate acirrado sobre a independência do artista para produzir sua própria arte.

Ao falar sobre sua concepção de poeta, Chacal falou sobre a relação da poesia com a música e sobre como o poeta é alguém que é capaz de aliar a palavra ao ritmo ao interpretar a palavra escrita. Para ele, poesia é também performance.

Busco a potência da palavra.
Comecei com o Oswald de Andrade, meu ponto de partida.
O que é ser poeta?
O que seria o poeta? Vou tentar entender junto com vocês.

Em seguida citou Torquato Neto:

Pessoal Intransferível

Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo : perigoso, divino, maravilhoso.

Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, “herdeiro” da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.

E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.

Publicado na coluna “Geléia Geral”, 3ª feira, 14/09/71

Historicamente, a poesia faz parte da tradição oral. Foi apenas quando Guttenberg inventou a imprensa, na Idade Média, que a palavra escrita se difundiu (ainda que, num primeiro momento, apenas para os nobres e religiosos soubessem ler). Além disso, o livro nesse período não era caro como símbolo de status, mas estava no mesmo lugar simbólico que as obras de arte. Nesse período também, o poeta era figura ativa da literatura de cordel.

‘Acho que a poesia perdeu um pouco da sua expressividade com a invenção da imprensa. O poema ganha potência quando é incorporado, quando passa a fazer sentido sozinho. A palavra, quando vem com essa carga poética, traz encanto.’, disse Chacal.

A partir daí, a discussão girou em torno da figura do contador de histórias, não tão comum nos dias de hoje, mas que tem o seu lugar na história, como é o caso dos griots, que ajudam a perpetuar as tradições de seus grupos por meio da tradição oral.

Já no final, Chacal representou um trecho do monólogo ‘Uma história à margem’, que conta a sua história e que está em cartaz terças e quartas, às 21h, na Casa de Cultura Laura Alvim.



Por Bárbara Reis Bolsistas PIBEX/UFRJ e Rute Casoy Assistente Pedagógica UQ.

6 de janeiro de 2012

poesia em tempo de fome

poesia em tempo de fome
fome em tempo de poesia

poesia em lugar do homem
pronome em lugar do nome

homem em lugar de poesia
nome em lugar de pronome
poesia de dar o nome

nomear é dar o nome

nomeio o nome
nomeio o homem
nomeio a fome

no meio a fome

Haroldo de Campos

12 de dezembro de 2011

Post Poema

O ANTEONTEM – não do tempo mas de mim –

Sorri sem jeito

E fica nos arredores do que vai acontecer

Como menino que pela primeira vez põe calça

[comprida.



Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,

Trata-se de substituir o lado pelo centro.

O que é da pedra também pode ser do ar.

O que é da caveira pertence ao corpo.

Não se trata de ser ou não ser,

Trata-se de ser e não ser.

Murilo Mendes

10 de outubro de 2011

Álibi

se os poetas não cantassem
o que teriam os filósofos a explicar?

José Paulo Paes

Tudo é vago

Tudo é vago e muito vário
meu destino não tem siso,
o que eu quero não tem preço
ter um preço é necessário,
e nada disso é preciso

Paulo Leminski

18 de agosto de 2011

Vai e vai

Faz dias
que faz noites

que faz noites
que faz dias.

Um segundo de cegueira sob a luz em movimento.

Que faz noites
que faz dias

que faz noites
que faz dias.

Paulo Eduardo de Freitas Maciel de Souza y Gonçalves

Do blog:
seuvicio.blogspot.com

28 de abril de 2011

DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!

Mario Quintana

14 de abril de 2011

Assim é que elas foram feitas

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) –
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas –
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas –
Passaram essa tarefa para os poetas.

Manoel de Barros

Silêncios

Ouça o silêncio
Nada novo

Só repetições intermináveis

Ouça o ruído das repetições
No cinema
Nos jornais
Nos anúncios
Nas músicas
Na TV
À nossa volta

Ouça a paralisia de tudo e de todos
Só as mesmas crises como avalanche
E logo em seguida alguém na TV fala que o pior já passou

Esse silêncio é nada
Porque tudo está por vir
Esse silêncio é paralisia
A calmaria ante a tempestade
Não é profecia é fato
Pois esse nada não pode ser tudo
Esse silêncio não pode ser nada

Salvador Passos

Queria tudo e tanto

Queria dizer tanto
Que calei
Queria correr tanto
Que cansei
Queria amar tanto
Que sonhei
Queria tudo e tanto
Que deitei
Queria viver tanto
Que morri

E na morte não morrida
vi a vida não vivida
E na falta disto tudo
Só palavra sem sentido
Fala sem princípio
Sonho não dormido

Tanta coisa pra dizer
& meu silêncio em tua boca

Salvador Passos

13 de abril de 2011

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

7 de abril de 2011

Ervilha da Fantasia



"Não sei se todos os povos amam seus cientistas, mas todos os povos amam seus poetas."

Paulo Leminski

Circulares

o círculo
lá no seu nulo
é o prin
cípio
precipício de tudo
cais nulo
casulo
do mundo

o circo
circula
fazendo do fim do mundo
o princípio de tudo